sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Franco, Mário Augusto Lyster




Do Natural

Tenho no meu quintal uma figueira
Que não tem grande encanto de roupagem,
Passa parte do ano sem folhagem
E não cresceu bonita nem fagueira.

Nasceu junto à janela do meu quarto,
Faz-me barulho quando a noite venta,
Só a minha paciência a aguenta
Nas muitas vezes em que já estou farto.

Quando aos seus figos é um encanto ver,
Dá-me bastantes que os pardais me levam
Mas dentre aqueles que os marotos deixam
Ainda ficam muitos para comer.

Mas o mais belo que eu encontro nela
Está numa haste que num gesto amigo
Tem qualquer coisa para ver comigo
E vem trazer-me os figos à janela.

São meia dúzia, sua graça vem
Por serem símbolo do que vai por cá
O magro prémio que o Algarve dá
Aqueles filhos que lhe querem bem!...

Mário Lyster Franco

in "Correio do Sul"


                                                     _____________________________

Para participar no concurso "Cont'Arte Audioleitura 2020" pode ler o  poema acima publicado  ou  outro texto  do autor.


                                                       _________________________________

Em 1914, com 12 anos, Mário Augusto Barbosa Lyster Franco foi o primeiro aluno matriculado no curso elementar de comércio recém criado na Escola Industrial e Comercial de Pedro Nunes em Faro.
                                                     
                                                             ___________________________________

Biografia


 Mário Augusto Barbosa Lyster Franco  nasceu em 19 de Fevereiro de 1902, filho do professor e jornalista Carlos Lyster Franco.

Carreira literária e profissional


Destacou-se desde cedo como um jornalista, tendo começado a escrever para o jornal O Algarve aos 8 anos de idade. Aos 13 anos, fez parte do I Congresso Regional Algarvio, na Praia da Rocha, em Portimão. Enquanto frequentava o liceu, fundou uma revista com António do Nascimento, e escrevia poesia para o jornal farense O Heraldo. Fez parte do movimento de poesia futurista.

Entrou na Faculdade de Direito de Lisboa, onde concluiu a sua licenciatura em 1927, regressando depois ao Algarve. No entanto, não exerceu de forma significativa como jurista, tendo trabalhado principalmente como jornalista e como investigador. Também exerceu como jornalista em Lisboa, durante a sua estadia na Faculdade de Direito e posteriormente, tendo trabalhado como redactor nos jornais A Pátria, O Tempo e A Palavra. Foi um dos primeiros jornalistas portugueses a cobrir a Guerra Civil Espanhola, tendo em 26 de Julho de 1936 viajado até Sevilha a bordo do avião Águia Branca, de forma a fazer uma reportagem para o jornal Diário de Notícias. Exerceu igualmente como redactor regional daquele periódico durante cerca de trinta anos. Como jornalista, homenageou as principais figuras da cultura do Algarve, como poetas, escritores e historiadores, especialmente no jornal Correio do Sul, onde também exerceu como director durante mais de quarenta anos. Conseguiu afirmar o jornal como um dos mais notáveis na região do Algarve, que defendia tanto as ideias nacionalistas como oposicionistas, embora sempre lutando pelos interesses da região.

Mário Lyster Franco lutou principalmente pelo desenvolvimento cultural e económico do Algarve, tendo sido, durante mais de setenta anos, um divulgador da região, tanto a nível local como em Lisboa. Nesse sentido, organizou e participou em várias conferências e exposições, e editou vários livros, jornais e revistas sobre o Algarve. Editou cerca de trinta livros sobre diversos assuntos, incluindo história e turismo, tendo sido pioneiro na publicação de guias bilingues sobre o Algarve, em 1944. Também reuniu uma importante biblioteca de livros sobre o Algarve, que na altura chegou a ser a maior na região, e que após o seu falecimento foi parcialmente transferida para a Região de Turismo do Algarve. Além de livros, a colecção também incluía o arquivo do jornal Correio do Sul, que foi preservado na biblioteca da Universidade do Algarve. A partir da década de 1980, Mário Lyster Franco começou a trabalhar na sua obra Algarviana – Subsídios para uma Bibliografia do Algarve e dos Autores Algarvios, uma publicação enciclopédica sobre a região, cujo primeiro volume foi editado pela autarquia de Faro em Dezembro de 1982. O segundo volume não chegou a ser publicado, devido ao falecimento de Lyster Franco em 1984.

Mário Lyster Franco também se dedicou à arqueologia, tendo sido nomeado como correspondente do Instituto Arqueológico Alemão em 1960. Foi um dos investigadores regionais que estudou a antiga cidade romana de Balsa, perto de Tavira.

Devido às suas fortes tendências regionalistas e nacionalistas, Mário Lyster Franco foi nomeado pelo Estado Novo como presidente da Câmara Municipal de Faro durante dois mandatos, de 1932 a 1934 e 1937 a 1939. Exerceu posteriormente como vereador na autarquia de Faro. Durante a sua permanência na autarquia farense, destacou-se por ter introduzido vários melhoramentos na cidade, como o Museu Antonino em 1932, e o monumento a José Bento Ferreira de Almeida.


Falecimento


Mário Lyster Franco morreu em Camarate, no concelho de Loures, em 20 de Agosto de 1984.

Homenagens


Mário Lyster Franco foi condecorado com o grau de oficial na Ordem Militar de Cristo em 5 de Outubro de 1932, e com uma comenda da Ordem do Mérito Civil de Espanha.

O nome de Mário Lyster Franco foi colocado numa rua em Loulé.

Em Novembro de 2018, a Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve, a Biblioteca da Universidade e o Club Farense prestaram homenagem a Mário Lyster Franco, com três conferências e a exposição Mário Lyster Franco: do Algarve ao Mundo.
Mário Lyster Franco começou a trabalhar na sua obra Algarviana – Subsídios para uma Bibliografia do Algarve e dos Autores Algarvios, uma publicação enciclopédica sobre a região, cujo primeiro volume foi editado pela autarquia de Faro em Dezembro de 1982. O segundo volume não chegou a ser publicado, devido ao falecimento de Lyster Franco em 1984.




in Wikipedia

Fraqueza, Maria José









Saudades de Minha Terra

Do alto da tua torre

Como é lindo o mar que se espraia
Na praia!...
Fuzeta! Meu Rio Oeta! 
Saudades da tua foz!
Nas águas mansas do teu rio
 Cantaram sereias ao desafio 
Nas águas do teu Olheiro 
Que iam nossas avós
É um sonhar de ilusões! 
Passaram tantas gerações!
 Na página do teu diário
 Decorrido um centenário 
Escrevo-te esta missiva 
Fazendo uma retrospectiva 
De minhas recordações 
Soaram teus "carrilhões" 
Carpindo a tua sina
Fuzeta velhinha!
Igreja menina!
Como eram belos os pregões 
Da Tia Estina
Oh! que saudade!
Fuzetenses bem ufanos
Recordai a mocidade! 
Recordai o "Pai Andrade" 
Com suas belas cantigas 
Que cantava às raparigas 
No seu jeito de versar
À sua noiva do mar! 
Para aliviar a mágoa,
Recordai o "Zé da Água"
Que levava a água aos "altares"
Água das águas dos mares
Maresia de água benta 
Água de poços e abismos 
Água benta dos baptismos 
Minha Fuzeta Velhinha! 
Tu tiveste teus heróis
Na pesca e seus anzóis 
Como o Chico Larencinha 
Ali, pertinho de ti, 
Oh! Minha igreja branquinha!
Estão glórias do passado 
Naquele lugar sagrado 
Tu és o maior monumento 
Escrito na palavra sentimento 
És o mais belo mosteiro!
Cabe nele, o meu amor verdadeiro.
(Menção honrosa nos Jogos Florais de N. S. do Carmo Fuzeta — 1986) 

in Histórias da Minha Terra,  páginas 93 e 94


           Para participar no concurso "Cont'Arte Audioleitura 2020" pode ler um dos poemas acima publicados  ou qualquer outro da autora.

___________________________________

          Maria José Fraqueza foi aluna nas Escola Serpa Pinto e Industrial e Comercial de Faro (EICF) na primeira metade dos anos 50 do século XX e alguns anos depois, nos finais dos anos  60 do século XX, foi professora da mesma escola.

___________________________________

Biografia


        Maria José Viegas da Conceição Fraqueza, nasceu na Fuzeta em 8 de Maio de 1936.
       Actualmente, é professora [aposentada] de Secretariado, na Escola C + S Dr. João Lúcio — Olhão. Passou por diversas escolas, onde desenvolveu núcleos de teatro amador, poesia, canto, etc., nomeadamente em: Almada, Estremoz, Faro [foi professora da Escola Industrial e Comercial de Faro nos finais dos anos  60 do século XX] Vila Real de Santo António e Olhão. Praticamente, toda a sua vida tem sido centrada nos seus alunos e na sua actividade profissional, dedicando parte da sua obra poética a estes, vivendo apenas na "poesia" para o seu "pequeno-grande Mundo" —as escolas, por onde passou, onde revelou sempre a sua "espontaneidade de poetisa repentista" — disso, constatam alunos e colegas que lidaram com a poetisa de perto.
             Em 1985, começou a concorrer a Jogos Florais, tendo, a partir daquela data, obtido alguns prémios, que a tornaram mais conhecida. Mas, foi precisamente através da Rádio Lagoa e graças a Edmundo Falé, que passou a ser conhecida de "um público mais numeroso" e a desenterrar a "poesia adormecida na gaveta".
            A poesia sentimento centrada no amor à sua terra, aos seus amigos e familiares, é um lado apaixonante da poetisa. Gosta, sobretudo, de transmitir alegria ou conforto aos outros, daí a razão de ser, dos seus versos, da sua poesia realista, por vezes, "picante", com extraordinário sentido de "humor"variado o seu "estilo de  versejar". Contudo, a poesia narrativa é uma característica dominante e original do seu trabalho.
          Daí, a razão de ser da sua opção.


Adaptação da contracapa do livro Histórias da Minha Terra publicado em janeiro de 1989


Dedicatória da autora no livro Histórias da Minha Terra

Sobre a obra desta Autora Cont'Arte e o seu valor, é importante reler  as doutas palavras do Dr. Joaquim Magalhães,outro importante Autor Cont'Arte,  reconhecido precisamente pelo seu apoio à literatura popular, no Prefácio do livro  Murmúrios do Mar  onde,  reconhecendo o valor da obra  também traduz o espírito do nosso concurso de audioleitura   quase... como se fosse uma profecia...

Luz Verde e Bandeira Azul



Inicia assim o seu «Murmúrio»... o Ex.m° Sr. Dr. Joaquim Magalhães...

(...)
           
         Curiosamente a autora destes «Murmúrios do Mar», agora em vias de continuação das «Histórias da Minha terra» que foi edição da Associação dos Poetas Populares do Alentejo e Algarve, acompanha a linha desses espontâneos, mas com uma formação académica e aspirações pessoais mais alargadas.
            Lendo, como devem ser lidos, estes «Murmúrios do Mar», em voz alta, mas não tanto que se atraiçoe o título, os leitores se aperceberão de que Maria José Fraqueza insiste nesta segunda obra num género literário, digamos, consagrado noutros tempos, mas muito menos usado, hoje em dia. Refiro-me ao soneto, forma de cerca de metade das composições do livro. Não direi que o rigor da métrica seja sempre perfeito, mas registo o impulso lírico espontâneo de sinceridade, de que, naturalmente nos apercebemos na tal leitura em voz alta, que, outra vez, se recomenda. E, quando assim lemos, vamos entendendo que não é o metro rigoroso a medida exacta da espontaneidade da escrita.
           E quem assim se apresenta sem pretensões merece uma saudação amigável e amiga que, pelo que me toca, não só não regateio, como o faço com muita simpatia e recomendo com a maior sinceridade.
         Escutem, de alma e coração abertos, estes «Murmúrios do Mar» e leiam-se os sonetos e demais poemas do volume como canções para uma construção de castelos da poesia à beira-mar, deste mar do Algarve, apanhado em «murmúrios».
          E fica assim mais alargada a obra de Maria José Fraqueza.
          Depois das «Histórias da Minha Terra» ia quase a dizer, histórias «ou murmúrios do meu mar». Também merecem luz verde e bandeira azul.

17 de outubro de 1989

Dr. Joaquim Magalhães

_________________________

E porque este blogue é de Autores Cont'Arte, a prefaciar o mesmo livro de Mª  José Fraqueza encontra-se um texto do Dr. Honorato Ricardo, ilustre estudante e professor da nossa escola, que pela sua raridade passamos a transcrever: em breve..





Gaspar, Margarida

A Dança da Duna Luna

Práticas Pedagógicas


Em breve.

Inocêncio, Pedro



       Pedro Tomás da Costa,jornalista estagiário do Diário de Notícias, tentava assimilar todos os acontecimentos e implicações daquele que tinha sido o seu alucinante e tumultuoso primeiro dia de trabalho no terreno. E que primeiro dia!

O atentado que havia presenciado iria mudar o mundo, tal e qual ele o conhecia. Aquele não era apenas um ato terrorista contra a vida de terceiros. Aquele rasgo arrebatador, composto por sons estridentes, era uma conjuntura calculada e mecanizada de uma forma impiedosa e desalmada. Mordaz. Tirana, até. Aquele era um atentado à democracia e ao estado de direito português. Um ato de guerra contra Portugal!

25 de abril de 2021, feriado nacional, Dia da Liberdade. O dia que marca a libertação de um povo sob o jugo de uma ditadura cruel e retrógrada.

Como acontece todos os anos, desde aquele célebredia do ano de 1974, em que se inverteu o rumo de um país estagnado e isolado do resto do mundo, a Assembleia daRepública recebia as mais ilustres figuras da nação: desde o atual Presidente da República, ao Primeiro-Ministro,
passando pelos chefes de estado devotos aos governos anteriores, bem como Ministros e Secretários de Estado, Deputados e principais representantes dos diversos organismos públicos. Estavam lá todos, de cravo na lapela, para celebrar o Dia da Liberdade e da fraternidade.

in "A Princesa do Índico", pág.10

                                                      ______________________________


Para participar no concurso "Cont'Arte Audioleitura 2020" pode ler o excerto acima publicado  ou qualquer outro do autor.


______________________________

Pedro Inocêncio foi aluno  na escola Tomás Cabreira, nos finais do século XX e professor na primeira década do século XXI.
______________________________


Biografia



      

  Pedro Inocêncio adora escrever e tem vindo a conquistar cada vez mais apreciadores da sua escrita vibrante e espontânea. A sua página de autor conta com mais de vinte e cinco mil seguidores.
        "Tudo Acontece por uma Razão" é o seu arrebatador romance de estreia. Lançado em finais de 2015 já vai na segunda edição. As críticas ao livro são equivalentes ao prazer de quem o lê.
       "A Herança Nazi" é o seu segundo livro. Trata-se de um invulgar e electrizante romance histórico, desenhado à imagem da originalidade emblemática do seu autor." Um verdadeiro tsunami de emoções" é a opinião de quem já leu este insólito enredo.
        Pedro Inocêncio conta ainda com uma significativa e engenhosa coletânea de poemas, letras para canções e textos editados. Basicamente o autor gosta de escrever sobre tudo o que o inspira.
         Na opinião do escritor existem três coisas fundamentais nesta vida: saber viver bem com aquilo que a vida nos dá, usufruir ao máximo da companhia  daqueles que mais amamos e outra coisa qualquer que também está relacionada com as duas anteriores...
       "A Princesa do Índico" é o seu terceiro romance. Mais uma vez o escritor considera um privilégio extraordinário poder conviver diariamente com o Pedro e a Bahira, personagens principais da trama, e viver , na primeira pessoa, esta aventura maravilhosa.


                                                      ______________________________


Pedro Inocêncio no wook: https://www.wook.pt/autor/pedro-inocencio/3466324
e no facebook. https://pt-pt.facebook.com/escritadopedroinocencio




Magalhães, Joaquim



      Loulé, 5 de Janeiro de 1940

       Meu querido Pai:
       (...)
       Estamos quási no fim das férias. Tencionamos estar em Faro de domingo, à noite, em deante.
       E, como novidades, além da boa viagem dos excursionistas a Lisboa, nada de interessante ou agradável a assinalar. Contudo, já veio anunciado que para ajudar a manter equilibrado o orçamental geral do Estado, teremos qualquer dia um novo desconto no vencimento de não sabemos ainda quantos por cento. Como ajuda de custo pelo aumento sensível dos preços em algumas par-
celas do orçamento particular de cada um, esta medida é pelo menos original.
       De resto, o que importa é que tudo corra bem, a bem de todos, no melhor dos sossêgos e aprazimento generalizado. Para completar este quadro de boa disposição, vamos continuando a gozar um bom inverno, com chuvas muito abundantes, que, em muitos pontos da província fazem estragos importantes nos trigos semeados. Há por cá já saudades do sol.
      Todavia, como o frio não aperta, as amendoeiras começam a cobrir-se de flores, e dentro de alguns dias mais, devem poder ver-se, se alguma ventania as não destroçar. E eis um pouco do quási nada de novo que há por estas boas terras algarvias.
     (...)

     (...)Com o abraço saudoso do costume do seu filho muito amigo e reconhecido
           
      Joaquim
                                                ________________________________

      Faro, 25 de Abril de 1965

     Querido Kim:

     Recebi ontem o teu postal tipo telegrama.
     Oxalá muito breve tenha a sorte de receber mais notícias tuas. 
     Por cá tudo de boa saúde, felizmente.
     O tempo continua magnífico. Muito mau afinal para o campo e nascentes.
     Está uma temperatura de junho e o campo apresenta o aspecto também próprio do verão. É uma calamidade e uma desolação em que tudo está com esta anormal estiagem.
    Mais isto para agravar a carestia da vida.
    Tivemos ontem à noite aqui em nossa casa a grande pianista Maria João Pires. Grande só de categoria artística, pois que de tamanho é mais pequena que a Cristina. É aflitivamente mignone.
     Casou com um violinista alemão, vive lá há quatro anos e, creio que lá fixou residência também. Veio passar a lua de mel à Ilha de Faro e por um acaso muito engraçado, que a meu olho detectivesco ajudou, deliciou-nos com uma Balada e um Nocturno de Chopin, primorosamente tocados.
     Passamos umas horas do género de fazer esquecer as coisas aborrecidas da vida.
Também um casal de ingleses, simpático, fez parte da sessão e animou a soirée.
     Fui ao Coral Misto dos Estudantes de Coimbra. Gostei do Coral.
     Das variedades uma ou outra piada com muita graça. Uma balada com versos de Manuel Alegre.
     A serenata não me deixou entusiasmada.
     O Dr. Vilhena fez uma brilhante apresentação e o estudante que agradeceu respondeu à altura do primeiro. Foi das coisas com interesse da noite.
     Que pena aquele homem ser quasi um inválido. É tão inteligente! Estou mortinha por saber as tuas impressões dessas terras de França. Oxalá não apanhes muito frio.
      A carta que te escrevi para o Porto só na 4.a feira lá chegou. De cá muitas saudades de todos.
     Não esqueças de dar um abraço aos amigos Tòssan.
     Muitos beijos da tua

     Mãe

in "Uma Escrita na Primeira Pessoa" de Joaquim Magalhães ( Recolha e anotações de Joaquim Antero Romero Magalhães)

____________________________________________________


Para participar no concurso "Cont'Arte Audioleitura 2020" pode ler um dos  excertos acima publicados  ou qualquer outro do Professor Joaquim Magalhães.
_______________________________

Joaquim Magalhães é o patrono da nossa escola dos 2.º e 3.º ciclos.
_______________________________

Biografia

      Joaquim da Rocha Peixoto Magalhães, Porto - 1909, Faro -1999.
    Licenciado pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1931); professor efectivo dos Liceus (1934-1975); reitor (1969-1974) e presidente do Conselho Directivo do Liceu de Faro (1974-75). 
   "Secretário" de António Aleixo tendo conseguido as primeiras edições de obras do poeta e organizado Este livro que vos deixo (com Tossan); colaborador de jornais, assegurou durante mais de 30 anos "Os 7 dias da semana" em O Algarve (parcialmente reunidos em volume em 2009);
dirigente de várias associações, em especial do Círculo Cultural do Algarve (1942-1972) .
     Publicou ensaios sobre António Aleixo, João de Deus, Manuel Teixeira Gomes, Emiliano da Costa e Bernardo Passos; reuniu algumas prosas com o título de Cartas Sem Código Postal e alguma poesia em Pretérito Imperfeito.
    Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.


Joaquim Magalhães com alunos (Sónia, Lourenço e Tiago) da (sua /nossa) escola com o seu nome em 1997

Marques, Franklin



REQUERIMENTO

Quero aproveitar
esta ocasião
pra solicitar
um favor
ao Sr. Director. *

Ora vamos lá então

Aqui a “semana passada”
(como deve estar lembrado…),
a turma foi confrontada
com um ponto bem “puxado”.

(Um ponto que sabia
Ser só de Pedologia.)

Mas acontece que o “dito”,
com Três perguntas somente,
era “puxado”, repito,
virou a cabeça à gente!

(À gente…quero dizer:
aos outros, está bem de ver!)

Pois…  (…)

Como sempre acontecia,
trazia a matéria em dia.
- Quem vai disso duvidar?
Preparado sim senhor:
- passei no dia anterior
dez minutos a estudar…

Tinha pois obrigação
de botar um figurão.
E foi o que sucedeu.
Estou certo que mais ninguém
Assim, tão depressa e bem,
às três questões respondeu!...

Ninguém imagina que pena
me fez aquela pequena
que, à minha frente, ficava. **
Inda dei uma espreitadela
só pra ver se o ponto dela
tão bom como o meu estava…

Mas não fui compreendido.
E até fui repreendido
eu, que só queria ajudar…
Pois o senhor entendeu
que, ao fim e ao cabo, eu
pretendia copiar! (…)

Longe de mim tal ideia.
Copiar? Que coisa feia
que eu nunca fiz, já se vê…
Pois, quem acima de tudo
coloca sempre o estudo,
há-de copiar… pra quê?

Mas passemos adiante:

Logo após um curto instante,
com certa surpresa minha
(e muda interrogação!...),
vejo-o premir um botão:
- o botão da campainha.

E, no seguinte momento,
acudindo ao chamamento
(Lembra-se bem? Eu não minto!),
como sempre, pressuroso
e com seu ar respeitoso,
surge na porta o Jacinto.

- Olhe, faça-me um favor
(Disse-lhe, então, o senhor
quando à porta o viu parado):
peça ali ao Canas, já,
e, depois, traga-me cá
o tal lápis encarnado!... (…)

Fiquei todo sorridente,
feliz da vida, contente.
- Quem não ficava? Pudera!
Mereciam ser destacadas,
a vermelho sublinhadas,
as três respostas que eu dera!

Mas veio o dia fatal
da entrega. E, afinal,
nem queria crer no que via:
- em diagonal, traçados,
três riscos bem carregados
cada resposta trazia.

Prejuízo! Iniquidade!
Um brado aos céus, na verdade.
Mas, felizmente, há leis novas
que me podem proteger,
pelo que passo a requerer
uma revisão de provas…

E, se alguém pensa que é treta
esta história completa,
que tenho vindo a narrar
da maneira que consigo,
veja bem! Trago comigo ***
o tal ponto… de espantar!!!

* O Dr. Hortênsio Pais de Almeida Lopes.
** Era a Esmeraldina…
*** …e trazia mesmo!

Franklin Marques, in “Livro”



Biografia

FRANKLIN MARQUES
O Prof. Franklin Marques (Franklin da Ascensão Rodrigues Marques), nasceu em Tavira, a 21 de Maio de 1936) e veio morar para Faro, aos 7 anos e onde faleceu em 2008. Na capital algarvia frequentou o Ensino Pimário, a extinta Escola Técnica Elementar Serpa Pinto, a então Escola Industrial e Comercial Tomás Cabreira e a escola do Magistério Primário, onde concluiu o seu curso de Professor, havendo leccionado em estabelecimentos de ensino de São Bartolomeu de Messines, Olhão, Loulé e Faro. 
Foi distinguido pela Câmara Municipal de Faro com a «Medalha de Mérito» e pela Federação Portuguesa de Atletismo. Fez parte da equipa da Direcção Regional de Educação do Algarve, onde se manteve até à aposentação.

in Blog "Costeletas" por João Leal

Nunes, Pedro

Em breve.

___________________________

Em 1888 Pedro Nunes foi o patrono da nossa primeira escola, Escola de Desenho Industrial de Pedro Nunes.

Pacheco, Rosária



Silêncios. Abraços.  E momentos...

Existem silêncios que falam
e olhares que nos tocam.
Existem carícias que saram as feridas
e abraços que nos protegem do mundo.

Existem silêncios cheios de vida
e olhares que nos despertam por dentro.
Existem carícias que nos fazem renascer
e abraços que nos agasalham e fortalecem.


E existem momentos que nos apaziguam o
corpo e a alma.

________________________________________

Um olhar

Ainda te lembras do dia em que nos
conhecemos? Foi apenas um olhar. Um olhar
que tudo mudou. Ali à beira-mar. À beira-mar
desta que passou a ser a nossa praia. Ainda
me recordo como se fosse hoje. E tu, ainda te
recordas desse dia? A resposta foi-lhe dada
através de um momento feito de silêncio.
Olhou para o seu lado direito. Apenas um
espaço vazio. E uma vez mais a vida chamou de
volta a sua memória. Ela partira. Partira numa
manhã fria de Inverno. O último inverno já não
estava a seu lado. Ou será que ainda estava?

                                                __________________________


Para participar no concurso "Concurso de Leitura Áudio Cont'Arte 2021" pode ler um dos textos acima publicados ou outro da autora.

                                                      ____________________

Rosária Pacheco é (2019/2020) professora nas escolas Joaquim Magalhães e Tomás Cabreira do nosso agrupamento.

                                                         ___________________________

Biografia:

           Rosária Pacheco nasceu em Seine-Saint-Denis (Saint-Ouen), Paris, a 29 de Novembro de 1970. De nacionalidade portuguesa, regressou a Portugal com cinco anos. Desde então reside em Faro, cidade berço dos seus pais.
            Licenciou-se em História pela Universidade Aberta. Atraída pelo lado mais espiritual da vida, fez formação na Área das Ciências Religiosas e profissionalizou-se pela Universidade Católica de Lisboa. Apaixonada pelo ensino, obteve o grau de Mestre em Ciências da Educação e da Formação pela Universidade do Algarve. Possui ainda formação na área da Fotografia pela ALFA - Associação Livre de Fotógrafos do Algarve.
          Desde cedo se interessou pela simplicidade e beleza da vida e da natureza. Desta sensibilidade brotou em si o amor pelas letras e pelas imagens, mas só agora se aventurou a partilhar a sua primeira Obra.
            Instantes Ilustrados é o reflexo mais puro da forma como a autora vê e sente tudo o que 
a rodeia. Cada momento que vive é sentido com todo o seu ser que se revela em cada página deste livro.

In Instantes Ilustrados, 2ª aba

                                               ____________________________________


Bibliografia:

Instantes Ilustrados, 2019:

Autor: Rosária Pacheco
Data de publicação: Agosto de 2019
Número de páginas: 118
ISBN: 978-989-52-6448-3
Colecção: Palavras Soltas
Idioma: PT

Sinopse:

"No início desta minha aventura literária, questionei-me se o meu livro algum dia conseguiria voar para as mãos de um leitor. Esta questão ainda permanece no meu interior, embora permaneça acompanhada de uma grande dose de optimismo e confiança. Se te recordas, meu querido leitor, também no início desta aventura, escrevi que te imaginava a ler o meu livro, e que só de imaginar-te já me sentia feliz. Esta imagem de felicidade mantém-se na esperança de se tornar realidade.

Se estás a ler esta contracapa é porque o Instantes Ilustrados já iniciou o seu voo e quis poisar nas tuas mãos. Não tenhas medo. Aventura-te na sua leitura. Ler as suas páginas é como embarcar numa viagem que nos convida a entrar em cada instante da vida que a autora captou e interpretou. Encontrarás um pouco de cada um de nós ao longo da tua leitura. Instantes Ilustrados é um livro para se ler e para se ver. Um livro em que a distância entre a autora e o leitor, a determinada altura, se dilui para dar início a uma verdadeira amizade, celebrada com a vida que os une."

in Instantes Ilustrados, contracapa

                                               ____________________________________

Fotografias:

- Reproduzimos uma das fotografias de de RP, que pode ver maior e com mais qualidade no seu [ Blogue de Fotografia. E a primeira fotografia desta página é também do blogue] de RP.




Veja mais sobre Rosária Pacheco nos seguintes links:








Pessanha, Fernando


    O horizonte assomava-se apontado a norte,ostentando um singular turvo cinza-esverdeado,
coroado de indefinida visibilidade. Lentamente,foram surgindo novas formas, inicialmente
amorfas mas, posteriormente, dotadas de traços mais acentuados e definidos, tanto a estibordo
como a bombordo: as embaciadas margens que se aproximavam. Ondas de curiosos reflexos prateados atiravam-se de encontro ao casco da embarcação, libertando gorgolejantes laivos de espuma e salpicastes gotas salgadas em redor da proa. A maré, ainda cheia, começava a vazar  impetuosamente, embalada pelo sopro determinado do vento, tornando difícil a entrada na barra. Incontáveis tons cendrados pintavam a tela que à proa se apresentava. Tratava-se daquele tipo de cenário que impunha respeito, o respeito subjacente à fragilidade do Homem perante as forças da natureza. Tornava-se urgente lançar âncora de modo a evitar o temporal que se aproximava, de modo a evitar urna outra tempestade no mar. Sim... a noite anterior tinha sido de temoroso temporal, pelo que havia reparações a fazer e mantimentos a comprar.


 In Hotel Anaidaug página...



 O sol afundava-se no horizonte daquele final de tarde, tingindo o  ocaso de enrubescidos tons avermelhados. Porém, e não obstante a frieza que se começava a fazer sentir, Miguel não fechava a janela de onde contemplava aquele improvável espectáculo cromático. Os tons alaranjados derramavam naquela estranha tela uma incrédula poesia visual, e Miguel ali se detinha, de cotovelos cravados no parapeito e olhar perdido no poente, aguardando a chegada da sua esposa. Todo aquele espectáculo dava-lhe que pensar... Era o nonagésimo aniversário da sua avó, uma velhinha de rugas profundas e cabelo branco, tão mirrada quanto risonha. Lembrava-se dela com inevitável carinho; o colo que a velha lhe dava quando ele era criança, as histórias que tantas vezes lhe tinha contado, as inúmeras birras que tinha suportado do neto. Entretanto, tinham passado três décadas, e agora era Miguel que dava colo, que contava histórias e suportava as birras da sua filha. A velha tinha ficado muito mais velha, uma criança tinha-se transformado num homem, e esse homem tinha dado origem a uma nova criança. Era o ciclo da vida...Naquele momento, em que afogueados raios de sol trespassavam unia nuvem sombria, Miguel apercebeu-se da absurda fragilidade e brevidade da condição humana. Todos ali estavam, inconscientes espectadores de uma contagem decrescente que os reduziria a pó.
Olhou para trás, virando a cara aos ruborizados raios de sol que esburacavam a nuvem. Olhou para a sua bebé que, no seu parque, brincava inocentemente com os seus brinquedos


in "Encontros Improváveis" página...

                                                 _____________________________________

Para participar no concurso "Cont'Arte Audioleitura 2020" pode ler um dos excertos acima publicados  ou outro das diferentes obras do autor.
                                                 _____________________________________

Fernando Pessanha  foi aluno da  Escola Tomás Cabreira no início do século XXI









Apresentando a sua obra na biblioteca da nossa escola
    .

Biografia


Fernando Pessanha nasceu em Faro, em 1980. É licenciado em Património Cultural, pela Universidade do Algarve, e mestrando em História do Algarve, também pela mesma Universidade. Membro do CEPHA (Centro de Estudos do Património e História do Algarve), é autor do ensaio "A Cidade Islâmica de Faro" e de inúmeros artigos de âmbito historiográfico publicados por diversos jornais regionais, para além de formador de História na UTL de Vila Real de Santo António. Encontros Improváveis é a sua primeira obra no campo da ficção. 




ligações

Pinto, Serpa



Nessa noite o meu sono foi acalentado pelo ruído da catarata de Gonha, que, a jusante dos rápidos da Situmba, interrompe a navegação do Zambeze.

No dia 4, logo de manhã, depois de ter comido um prato enorme de ginguba, presente do chefe das povoações, tomei um guia e dirigi-me para as cataratas.
[...]
Gonha não tem a imponência das grandes cataratas. Ali a paisagem é suave, variada e atraente. A mistura da floresta pomposa, com a rocha e com a água, estão harmonizadas, como por mão de artista hábil em tela primorosa.

Mesmo o despenhar da água no abismo, não causa ruído pavoroso, e é decerto amortecido pela vegetação enorme que a rodeia.

Ali não se elevam vapores, que convertidos em chuva alaguem as vizinhanças; ali o acesso é livre a toda a parte, parecendo que a natureza se comprazeu a tornar fácil a visita à sua bela obra. Gonha é como a casquilha que se mostra, que se deixa contemplar, para que a admirem.

Depois de levantar a planta da grandiosa catarata, demorei-me ali até à noite, não cansando os olhos de ver tão esplêndido quadro, em que a cada momento descobria uma nova beleza.

Voltei ao meu campo, saudoso pela lembrança de que não veria mais em minha vida, o espetáculo sublime que deixava para sempre.

Mapa: Alto Zambeze - Cataratas de Gonha
____________________________

Para participar no concurso "Cont'Arte Leitura Áudio 2020" pode ler o excerto acima ou qualquer outro da  obra Como eu atravessei a África (Vol. I e Vol. II)) do  explorador Serpa Pinto.

                                                        _________________________________

Serpa Pinto foi patrono da nossa Escola  Técnica Elementar Serpa Pinto  entre 1947 e 1951.
____________________________


Escola Técnica Elementar
Serpa Pinto
"Em 1948, com a construção do novo edifício do Liceu de Faro, a Escola Técnica Elementar Serpa Pinto, criada pelo Decreto Lei n.º 36 409, de 11 de Julho de 1947, passa a ocupar o edifício onde funcionava o Liceu, o qual foi objeto de diversas obras de remodelação e ampliação. Em 31/05/1951, pelo Dec. - Lei n.º 38 277, fundiu-se a Escola Industrial e Comercial de Tomás Cabreira com a Escola Técnica Elementar Serpa Pinto, dando origem  à Escola Industrial e Comercial de Faro."

 in blogue da AAAETC.


     
Serpa Pinto foi militar e explorador do continente africano.

Em 1877 Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens são nomeados para participar numa expedição científica à África Central, que tinha como objetivo -no interesse da ciência e da civilização- explorar os territórios compreendidos entre as províncias de Angola e Moçambique e estudar as relações entre as bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze. Após divergências* com os seus companheiros, Serpa Pinto entendeu continuar sozinho para fazer o reconhecimento do território e efetuar o mapeamento do interior do continente africano, de modo a preparar a entrada de Portugal na discussão pela ocupação dos territórios africanos que, até então, apenas serviam de entrepostos comerciais. Pode ver mais informações sobre o "Mapa cor-de-rosa" e o "Ultimato britânico de 1890 na wikipédia de Serpa Pinto.

*Este desentendimento resultou em dois livros que foram best sellers: “Como eu atravessei a África" de Serpa Pinto e “De Benguela às Terras do Iaca” de Capelo e Ivens.
____________________________

Serpa Pinto in wook:

 
____________________________

Mais um excerto de Como eu atravessei a África atualizado e lido pelas alunas Beatriz Santos e Maria Sofia para um trabalho de Aplicações Informáticas B no âmbito do Projeto Cont'Arte:

"Não tem pretensões a obra de literatura este livro. Escrito sem preocupação da forma, é a fiel reprodução do meu diário de viagem.

Cortei nele muitos episódios de caçadas, e outros, que um dia no descanso, produziram um volume de carácter especial. Busquei sobre tudo fazer realçar o que mais interessante se tornava para os estudos geográficos e etnográficos, e se não me pude eximir a narrar um ou outro dos muitos episódios dramáticos que abundaram na minha fadigosa empresa, foi quando a esses episódios se ligavam factos consequentes, de importância, já para alterar o itinerário projetado, já determinando demoras, ou marchas precipitadas, que seriam incompreensíveis sem a exposição das causas determinantes.

À Europa, e em geral ao homem que nunca viajou nos sertões do interior de África, não é dado compreender o que se sofre ali, quais as dificuldades a vencer a cada instante, qual o trabalho de ferro não interrompido para o explorador."

Quaresma, Amilcar


 

Poema das sete cores, sete dores

Que fizeram, Poeta às tuas cores?
Que é feito desse verde tão amado,
Porque está o mundo abandonado,
Para que servem, Poeta, as tuas flores?

As tuas Bailarinas já não dançam
O bailado das cores imortais.
Triste são deste tempo estes sinais.
Se os poetas de pintar até se cansam.

Verde, amarelo, azul, violeta, alaranjado,
Variados sentimentos já dançaram.
Mas bailaram, com tristeza, sem calor

As tuas fúcsias no teu verso celebrado.
Pois no fim dessa dança, que bailaram,
O branco foi esquecido pelo autor.

 in Diário, página 195

Caricatura por Francisco Zambujal

____________________________________


6 de Novembro de 1986

Um pouco ao Deus dará...

      Este Diário é, ao fim e ao cabo, uma amálgama de notas arrumadas um pouco ao Deus dará.
Coisas do tempo passado, eu misturo com outras  talvez acontecidas hoje mesmo. Mas o que prometo aos meus leitores, é que a Escola e os moços estejam  nas histórias que eu contar, nos comentários que  fizer. Recordo hoje o Mário. Há quantos anos aconteceu isto, meu Deus? Há mais de vinte e cinco,  certamente. O Mário ganhou mil litros de gasolina super. por ter sido o primeiro, num concurso de frases publicitárias à escala nacional. A empresa  que teve esta iniciativa dirigiu-se à nossa Escola,  que na altura se chamava Escola Industrial e Comercial de Faro, requerendo a nossa participação. Eu era professor de Técnica de Vendas e Publicidade e pus os meus alunos todos, a inventar frases publicitárias. A alegria do êxito veio oferecida em etapas. Primeiro, uma carta elogiosa para o professor que soubera ligar a vida às suas lições. Na verdade, essa tem sido a minha luta, o quebrar fronteiras entre a Escola e a Cidade. Depois a espantosa revelação: o Mário fora o primeiro, entre cerca de 3000 frases concorrentes! Depressa ficou resolvido, que o Mestre acompanharia o estudante premiado a Lisboa e logo nos preparativos da viagem começou a festa. Uma ida ao Jardim Zoológico ficou, desde logo, programada. Hoje, recordo a tal frase vencedora:
 "Viscostatic, um sucesso no progresso" O moço construira uma frase publicitária apenas com quatro palavras! Grande vitória! Lembro-me perfeitamente o gozo que foi tirar partido das ofertas prometidas! Entraríamos no melhor hotel. Não pouparíamos no restaurante. Da vida lisboeta, eu pouco mais sabia que o meu jovem aluno. Daí o encontrarmo-nos   num restaurante, que depois verificámos, e ainda bem, que era muito luxuoso e de cinco estrelas! Meu Deus! Um tanto encabulados, olhávamos para aquilo tudo extasiados. Aquários luminosos com peixes transparentes, volteando...Pássaros exóticos em gaiolas douradas. Velas, em cima das mesas...Ai, santo Deus, como vai ser isto, de escolher os alimentos? Como sempre gostei das cores, deixei-me seduzir por um caldo, que se chamava "Três cores". Sabem os meus leitores, o que aconteceu? Apareceu uma água chilra, sem sabor, onde boiavam três bolinhas, tipo pintarolas!O Mário, olhou-me de soslaio e desatámos a rir, a rir, como perdidos. Jurámos que não nos enganariam mais. Desistimos do luxuoso caderno, onde os pratos vinham com seus nomes em francês e inglês e pedi ao empregado escandalizado, simplesmente, dois bifes com batatas fritas.
       Foi um nunca acabar de episódios memoráveis essa ida a Lisboa , por quatro ou cinco 
dias. Lembro-me agora de dois momentos: um solene; outro espectacular! O momento formal foi
quando na sede da companhia petrolífera o meu aluno assinou um documento através do qual cedia
os seus direitos de autor da frase por si inventada a favor da empresa que a iria usar em todo o mundo, onde actuava, vendendo gasolinas e derivados. Na altura da assinatura sentimos os relâmpagos das fotos de circunstância. O momento espectacular foi, quando no meio dum concurso muito popular da TV de então, o "Diga, diga...", o Jorge Alves, famoso locutor já falecido, nos entrevistou: ao herói da sessão, um moço de Faro e mais o seu professor, que nesse dia entrou pela vez primeira para o arquivo histórico da TV! Podem imaginar, o que foi, em Faro, essa sessão televisiva? Faro era mais pequena, quase uma família...Tenho a certeza que tudo parou, há vinte e seis anos, quando eu e o Mário debutávamos na TV.

In Diário, páginas 143 a 145

                                                 _____________________________


Para participar no concurso "Cont'Arte Audioleitura 2020" pode ler um dos textos  acima publicados  ou qualquer outro do autor.
____________________________________________________

Amílcar Quaresma  foi professor da  Escola Industrial e Comercial de Faro, nos  anos 60  e 70 do século XX.


____________________________________

A Visita ao Porto

As aventuras dos Algarvios, estes rapazes,
   E também as partidas destas moças,
Que de muitos feitos são capazes,
E a santa paciência dos professores,
Que ganharam vitórias não fugazes,
Eu cantarei, se a inspiração vier
E da excursão ao Porto eu comporei
Um poema, se tal fama lá couber!

​A vós, ó ninfas de grande valimento,
A vós filhas do Rio Seco, tão famoso,
EU peço inspiração, entendimento,
E faço-o, em jeito humilde e piedoso.
Se para edificar tal momento,
O valor falta, esse jeito precioso,
Aumentai, musas minhas o talento,
E dai-me um estilo nobre e engenhoso.

In O Diário, Páginas 162 e 163




____________________________________
Biografia

         Amílcar Quaresma nasceu a 11 de março 1934 em Estoi, Faro. Desde cedo descobriu vocação para as letras, criando, na escola primária, um jornal colorido a lápis de cor a que deu o nome de Foguete. Fundou e dirigiu várias publicações, como Rompeu, Alvorada, Despertar, Açoteia, Jogral, Tempo Jovem e Preto no Branco, muitas delas escolares, em conjunto com os milhares de alunos que ensinou. Dividiu a carreira de professor entre a Escola Tomás Cabreira e o antigo Liceu de Faro (atual Escola Secundária João de Deus), mas foi também dirigente associativo de várias coletividades, tendo fundado o Jograis de Estoi. Faleceu aos 75 anos e dividiu a sua vida entre a docência, a literatura e a comunicação social.