sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Franco, Mário Augusto Lyster




Do Natural

Tenho no meu quintal uma figueira
Que não tem grande encanto de roupagem,
Passa parte do ano sem folhagem
E não cresceu bonita nem fagueira.

Nasceu junto à janela do meu quarto,
Faz-me barulho quando a noite venta,
Só a minha paciência a aguenta
Nas muitas vezes em que já estou farto.

Quando aos seus figos é um encanto ver,
Dá-me bastantes que os pardais me levam
Mas dentre aqueles que os marotos deixam
Ainda ficam muitos para comer.

Mas o mais belo que eu encontro nela
Está numa haste que num gesto amigo
Tem qualquer coisa para ver comigo
E vem trazer-me os figos à janela.

São meia dúzia, sua graça vem
Por serem símbolo do que vai por cá
O magro prémio que o Algarve dá
Aqueles filhos que lhe querem bem!...

Mário Lyster Franco

in "Correio do Sul"


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Para participar no concurso "Cont'Arte Audioleitura 2020" pode ler o  poema acima publicado  ou  outro texto  do autor.


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Em 1914, com 12 anos, Mário Augusto Barbosa Lyster Franco foi o primeiro aluno matriculado no curso elementar de comércio recém criado na Escola Industrial e Comercial de Pedro Nunes em Faro.
                                                     
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Biografia


 Mário Augusto Barbosa Lyster Franco  nasceu em 19 de Fevereiro de 1902, filho do professor e jornalista Carlos Lyster Franco.

Carreira literária e profissional


Destacou-se desde cedo como um jornalista, tendo começado a escrever para o jornal O Algarve aos 8 anos de idade. Aos 13 anos, fez parte do I Congresso Regional Algarvio, na Praia da Rocha, em Portimão. Enquanto frequentava o liceu, fundou uma revista com António do Nascimento, e escrevia poesia para o jornal farense O Heraldo. Fez parte do movimento de poesia futurista.

Entrou na Faculdade de Direito de Lisboa, onde concluiu a sua licenciatura em 1927, regressando depois ao Algarve. No entanto, não exerceu de forma significativa como jurista, tendo trabalhado principalmente como jornalista e como investigador. Também exerceu como jornalista em Lisboa, durante a sua estadia na Faculdade de Direito e posteriormente, tendo trabalhado como redactor nos jornais A Pátria, O Tempo e A Palavra. Foi um dos primeiros jornalistas portugueses a cobrir a Guerra Civil Espanhola, tendo em 26 de Julho de 1936 viajado até Sevilha a bordo do avião Águia Branca, de forma a fazer uma reportagem para o jornal Diário de Notícias. Exerceu igualmente como redactor regional daquele periódico durante cerca de trinta anos. Como jornalista, homenageou as principais figuras da cultura do Algarve, como poetas, escritores e historiadores, especialmente no jornal Correio do Sul, onde também exerceu como director durante mais de quarenta anos. Conseguiu afirmar o jornal como um dos mais notáveis na região do Algarve, que defendia tanto as ideias nacionalistas como oposicionistas, embora sempre lutando pelos interesses da região.

Mário Lyster Franco lutou principalmente pelo desenvolvimento cultural e económico do Algarve, tendo sido, durante mais de setenta anos, um divulgador da região, tanto a nível local como em Lisboa. Nesse sentido, organizou e participou em várias conferências e exposições, e editou vários livros, jornais e revistas sobre o Algarve. Editou cerca de trinta livros sobre diversos assuntos, incluindo história e turismo, tendo sido pioneiro na publicação de guias bilingues sobre o Algarve, em 1944. Também reuniu uma importante biblioteca de livros sobre o Algarve, que na altura chegou a ser a maior na região, e que após o seu falecimento foi parcialmente transferida para a Região de Turismo do Algarve. Além de livros, a colecção também incluía o arquivo do jornal Correio do Sul, que foi preservado na biblioteca da Universidade do Algarve. A partir da década de 1980, Mário Lyster Franco começou a trabalhar na sua obra Algarviana – Subsídios para uma Bibliografia do Algarve e dos Autores Algarvios, uma publicação enciclopédica sobre a região, cujo primeiro volume foi editado pela autarquia de Faro em Dezembro de 1982. O segundo volume não chegou a ser publicado, devido ao falecimento de Lyster Franco em 1984.

Mário Lyster Franco também se dedicou à arqueologia, tendo sido nomeado como correspondente do Instituto Arqueológico Alemão em 1960. Foi um dos investigadores regionais que estudou a antiga cidade romana de Balsa, perto de Tavira.

Devido às suas fortes tendências regionalistas e nacionalistas, Mário Lyster Franco foi nomeado pelo Estado Novo como presidente da Câmara Municipal de Faro durante dois mandatos, de 1932 a 1934 e 1937 a 1939. Exerceu posteriormente como vereador na autarquia de Faro. Durante a sua permanência na autarquia farense, destacou-se por ter introduzido vários melhoramentos na cidade, como o Museu Antonino em 1932, e o monumento a José Bento Ferreira de Almeida.


Falecimento


Mário Lyster Franco morreu em Camarate, no concelho de Loures, em 20 de Agosto de 1984.

Homenagens


Mário Lyster Franco foi condecorado com o grau de oficial na Ordem Militar de Cristo em 5 de Outubro de 1932, e com uma comenda da Ordem do Mérito Civil de Espanha.

O nome de Mário Lyster Franco foi colocado numa rua em Loulé.

Em Novembro de 2018, a Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve, a Biblioteca da Universidade e o Club Farense prestaram homenagem a Mário Lyster Franco, com três conferências e a exposição Mário Lyster Franco: do Algarve ao Mundo.
Mário Lyster Franco começou a trabalhar na sua obra Algarviana – Subsídios para uma Bibliografia do Algarve e dos Autores Algarvios, uma publicação enciclopédica sobre a região, cujo primeiro volume foi editado pela autarquia de Faro em Dezembro de 1982. O segundo volume não chegou a ser publicado, devido ao falecimento de Lyster Franco em 1984.




in Wikipedia

Gaspar, Margarida







- Dar Vida à Escola - 1996

 Excerto das páginas 17 a 19: Museu - Colecionismo

"O Museu cria um espaço novo dentro da escola ...que valoriza um património muitas vezes esquecido ou pouco divulgado..
As bases do projeto são: o colecionismo, a identificação e o estudo das peças que se recolhem. É um trabalho histórico e moroso que exige uma continuidade sem fronteiras ... [e] ... pode ser trabalhado interdisciplinarmente, ... pois é tanta a diversidade de tarefas que, para cada disciplina, há a possível exploração de uma delas... "
(ver imagens abaixo.)
Plano de um Museu-Marinho (Escola C+S de Montenegro - Faro).







Biografia

Faro, 1966.
Professora. Autora de Livros técnicos / Manuais escolares.
É coordenadora de projetos escolares como: "Gabinete de Aconselhamento sobre Sexualidade" e "Encontros com a Adolescência, Educação para a Saúde".
Aluna da Escola Secundária João de Deus, em Faro, nos anos 80 do século XX. 
Atualmente  é professora no Agrupamento de Escolas Tomás Cabreira, em Faro.

Bibliografia:

Dar vida à escola: manual de atividades, 1996.
Sínteses Esquemáticas - Biologia e Geologia 11º Ano, 2008.
A Dança da Duna Luna da Praia de Faro, 2011 - Coordenação Científica





Inocêncio, Pedro



       Pedro Tomás da Costa, jornalista estagiário do Diário de Notícias, tentava assimilar todos os acontecimentos e implicações daquele que tinha sido o seu alucinante e tumultuoso primeiro dia de trabalho no terreno. E que primeiro dia!

O atentado que havia presenciado iria mudar o mundo, tal e qual ele o conhecia. Aquele não era apenas um ato terrorista contra a vida de terceiros. Aquele rasgo arrebatador, composto por sons estridentes, era uma conjuntura calculada e mecanizada de uma forma impiedosa e desalmada. Mordaz. Tirana, até. Aquele era um atentado à democracia e ao estado de direito português. Um ato de guerra contra Portugal!

25 de abril de 2021, feriado nacional, Dia da Liberdade. O dia que marca a libertação de um povo sob o jugo de uma ditadura cruel e retrógrada.

Como acontece todos os anos, desde aquele célebre dia do ano de 1974, em que se inverteu o rumo de um país estagnado e isolado do resto do mundo, a Assembleia da República recebia as mais ilustres figuras da nação: desde o atual Presidente da República, ao Primeiro-Ministro,
passando pelos chefes de estado devotos aos governos anteriores, bem como Ministros e Secretários de Estado, Deputados e principais representantes dos diversos organismos públicos. Estavam lá todos, de cravo na lapela, para celebrar o Dia da Liberdade e da fraternidade.

in "A Princesa do Índico", pág.10

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Para participar no concurso "Cont'Arte Audioleitura 2020" pode ler o excerto acima publicado  ou qualquer outro do autor.


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Pedro Inocêncio foi aluno  na escola Tomás Cabreira, nos finais do século XX e professor na primeira década do século XXI.
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Biografia



      

  Pedro Inocêncio adora escrever e tem vindo a conquistar cada vez mais apreciadores da sua escrita vibrante e espontânea. A sua página de autor conta com mais de vinte e cinco mil seguidores.
        "Tudo Acontece por uma Razão" é o seu arrebatador romance de estreia. Lançado em finais de 2015 já vai na segunda edição. As críticas ao livro são equivalentes ao prazer de quem o lê.
       "A Herança Nazi" é o seu segundo livro. Trata-se de um invulgar e eletrizante romance histórico, desenhado à imagem da originalidade emblemática do seu autor." Um verdadeiro tsunami de emoções" é a opinião de quem já leu este insólito enredo.
        Pedro Inocêncio conta ainda com uma significativa e engenhosa coletânea de poemas, letras para canções e textos editados. Basicamente o autor gosta de escrever sobre tudo o que o inspira.
         Na opinião do escritor existem três coisas fundamentais nesta vida: saber viver bem com aquilo que a vida nos dá, usufruir ao máximo da companhia  daqueles que mais amamos e outra coisa qualquer que também está relacionada com as duas anteriores...
       "A Princesa do Índico" é o seu terceiro romance. Mais uma vez o escritor considera um privilégio extraordinário poder conviver diariamente com o Pedro e a Bahira, personagens principais da trama, e viver , na primeira pessoa, esta aventura maravilhosa.


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Alguma vez te disse  

Alguma vez te disse, como é bom ver-te sorrir
Entrar na nossa casa, não ter pressa de sair
Já alguma vez te disse ou esqueci-me de explicar 
Nem sempre os sentimentos são fáceis de decifrar

Sempre que estás ao meu lado
Sinto a magia que nos envolve 
Não há futuro nem há passado 
Apenas o romance no ar

Alguma vez te disse como é bom ouvir a canção
Sentados na poltrona inventamos o serão
Falaste-me de gente, ruas, praias e cidades
Nos palácios, monumentos, somos nós as celebridades

E ninguém sabe os segredos
Que escondemos na palma da mão 
Tu sabes que o nosso enredo está 
Escrito no mesmo guião

E tu, libertas-me dessa ansiedade 
Sim, tu, refletes a minha vontade
E tu, surpreendes-me com o  prazer 
Mesmo sem querer

Sempre que estás ao meu lado 
Eu sinto a magia que nos envolve 
Não há futuro nem há passado 
Apenas o romance no ar

E tu, libertas-me dessa ansiedade 
Sim, tu, confrontas-me com a verdade 
E tu, surpreendes-me com o prazer 
Mesmo sem querer
   
in "Tudo Acontece Por Uma Razão", páginas 336 e 337

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Pedro Inocêncio no wook: https://www.wook.pt/autor/pedro-inocencio/3466324
e no facebook. https://pt-pt.facebook.com/escritadopedroinocencio




Magalhães, Joaquim










Pretérito Perfeito

Pretérito imperfeito
de uma vida,
mais ou menos vivida
sem rumo nem jeito,
à espera de mim,
do que eu me suponho,
ou do que eu me sonho
capaz e não faço.
Ata-me um cansaço
das coisas, de mim,
cansaço sem fim,
tão forte e subtil
que nunca consigo
passar dos projetos
que esboço num sonho
de revelação.
Se digo que sim,
que me descobri
capaz de fazer,
a vida diz não
e páro cansado.
Já resignado,
a não vir a ser
aquilo que, em sonho,
mil vezes sonhado,
eu sou e não sou.
É mais forte a vida
que o sonho sonhado;
ai vida sem vida
que me tens atado!
 


 
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  • Quadra de JM ao jeito alexiano

Cada um é como é,
e, por isso, eu sou assim,
dei todo o meu tempo aos outros,
fiquei sem tempo para mim.

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  • Quadra de António Aleixo a homenagear o Dr. Joaquim Magalhães

Não há nenhum milionário
que seja feliz como eu
Tenho como secretário
um professor do liceu.

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Joaquim Magalhães foi professor e reitor do Liceu de Faro/Escola João de Deus é o patrono da escola dos 2.º e 3.º ciclos do Agrupamento de Escolas Tomás Cabreira.
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Notas Biográficas

      Joaquim da Rocha Peixoto Magalhães, Porto - 1909, Faro -1999.
    Licenciado pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1931); professor efectivo dos Liceus (1934-1975); reitor (1969-1974) e presidente do Conselho Directivo do Liceu de Faro (1974-75). 
   "Secretário" de António Aleixo tendo conseguido as primeiras edições de obras do poeta e organizado Este livro que vos deixo (com Tossan); colaborador de jornais, assegurou durante mais de 30 anos "Os 7 dias da semana" em O Algarve (parcialmente reunidos em volume em 2009);
dirigente de várias associações, em especial do Círculo Cultural do Algarve (1942-1972) .
     Publicou ensaios sobre António Aleixo, João de Deus, Manuel Teixeira Gomes, Emiliano da Costa e Bernardo Passos; reuniu algumas prosas com o título de Cartas Sem Código Postal e alguma poesia em Pretérito Imperfeito.
    Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.


Joaquim Magalhães com alunos (Sónia, Lourenço e Tiago) da (sua /nossa) escola com o seu nome em 1997

Nunes, Pedro

Pedro Nunes
Alcácer do Sal, 1502 - Coimbra, 1578. 
Matemático, cientista, autor de livros sobre matemática e ciência, 
Professor, inventor do Nónio, 
Em 1888 Pedro Nunes foi o patrono da nossa primeira escola, Escola de Desenho Industrial de Pedro Nunes.

Notas biográficas
in "O Grande livro dos Portugueses" do Círculo de Leitores

Era de ascendência judaica. Frequentou as Universidades de Lisboa, Salamanca e, segundo parece, de Alcalá de Henares. Era bacharel quando, em 16.1.1529, foi nomeado cosmógrafo do reino; em 4.12.1529 obteve, por concurso, a cadeira de Filosofia Moral na Universidade de Lisboa, transitando depois para a de Lógica e posteriormente para a de Metafísica. Em 1532 renunciou ao ensino universitário, continuando, porém, a leccionar os infantes D. Luis e D. Henrique (futuro cardeal-rei) e a dedicar-se à investigação. De 1544 a 1562 teve a seu cargo a cadeira de Matemática na universidade, transferida de Lisboa para Coimbra em 1537. Em 12.12.1547 passou a cosmógrafo-mor.


Bibliografia
- Tratado da Esfera, 1537, onde apresenta pela primeira vez a ideia das curvas loxodrómicas, 
- De Crepusculis, 1542 - considerada a mais original das suas obras e a que lhe deu maior renome além-fronteiras -, onde descreve a sua invencão denominada nónio, 
- De Arte atque de Ratione Navigandi Libri Duo, 1566.
A sua Obra Científica, em que faz a crítica aos tratadistas do tempo, dá-lhe lugar cimeiro entre os matemáticos do seu século.



Pessanha, Fernando


   

 O horizonte assomava-se apontado a norte,ostentando um singular turvo cinza-esverdeado,
coroado de indefinida visibilidade. Lentamente,foram surgindo novas formas, inicialmente
amorfas mas, posteriormente, dotadas de traços mais acentuados e definidos, tanto a estibordo
como a bombordo: as embaciadas margens que se aproximavam. Ondas de curiosos reflexos prateados atiravam-se de encontro ao casco da embarcação, libertando gorgolejantes laivos de espuma e salpicastes gotas salgadas em redor da proa. A maré, ainda cheia, começava a vazar  impetuosamente, embalada pelo sopro determinado do vento, tornando difícil a entrada na barra. Incontáveis tons cendrados pintavam a tela que à proa se apresentava. Tratava-se daquele tipo de cenário que impunha respeito, o respeito subjacente à fragilidade do Homem perante as forças da natureza. Tornava-se urgente lançar âncora de modo a evitar o temporal que se aproximava, de modo a evitar urna outra tempestade no mar. Sim... a noite anterior tinha sido de temoroso temporal, pelo que havia reparações a fazer e mantimentos a comprar.


 In Hotel Anaidaug 



 O sol afundava-se no horizonte daquele final de tarde, tingindo o  ocaso de enrubescidos tons avermelhados. Porém, e não obstante a frieza que se começava a fazer sentir, Miguel não fechava a janela de onde contemplava aquele improvável espectáculo cromático. Os tons alaranjados derramavam naquela estranha tela uma incrédula poesia visual, e Miguel ali se detinha, de cotovelos cravados no parapeito e olhar perdido no poente, aguardando a chegada da sua esposa. Todo aquele espectáculo dava-lhe que pensar... Era o nonagésimo aniversário da sua avó, uma velhinha de rugas profundas e cabelo branco, tão mirrada quanto risonha. Lembrava-se dela com inevitável carinho; o colo que a velha lhe dava quando ele era criança, as histórias que tantas vezes lhe tinha contado, as inúmeras birras que tinha suportado do neto. Entretanto, tinham passado três décadas, e agora era Miguel que dava colo, que contava histórias e suportava as birras da sua filha. A velha tinha ficado muito mais velha, uma criança tinha-se transformado num homem, e esse homem tinha dado origem a uma nova criança. Era o ciclo da vida...Naquele momento, em que afogueados raios de sol trespassavam unia nuvem sombria, Miguel apercebeu-se da absurda fragilidade e brevidade da condição humana. Todos ali estavam, inconscientes espectadores de uma contagem decrescente que os reduziria a pó.
Olhou para trás, virando a cara aos ruborizados raios de sol que esburacavam a nuvem. Olhou para a sua bebé que, no seu parque, brincava inocentemente com os seus brinquedos


in "Encontros Improváveis"

                                             

Fernando Pessanha  foi aluno da  Escola Tomás Cabreira no início do século XXI





Apresentando a sua obra na biblioteca da nossa escola
    .

Notas biográficas

Fernando Pessanha nasceu em Faro, em 1980. É licenciado em Património Cultural, pela Universidade do Algarve, e mestrando em História do Algarve, também pela mesma Universidade. Membro do CEPHA (Centro de Estudos do Património e História do Algarve), é autor do ensaio "A Cidade Islâmica de Faro" e de inúmeros artigos de âmbito historiográfico publicados por diversos jornais regionais, para além de formador de História na UTL de Vila Real de Santo António. Encontros Improváveis é a sua primeira obra no campo da ficção. 




Pinto, Serpa


















Nessa noite o meu sono foi acalentado pelo ruído da catarata de Gonha, que, a jusante dos rápidos da Situmba, interrompe a navegação do Zambeze.
No dia 4, logo de manhã, depois de ter comido um prato enorme de ginguba, presente do chefe das povoações, tomei um guia e dirigi-me para as cataratas.
[...]
Gonha não tem a imponência das grandes cataratas. Ali a paisagem é suave, variada e atraente. A mistura da floresta pomposa, com a rocha e com a água, estão harmonizadas, como por mão de artista hábil em tela primorosa.
Mesmo o despenhar da água no abismo, não causa ruído pavoroso, e é decerto amortecido pela vegetação enorme que a rodeia.
Ali não se elevam vapores, que convertidos em chuva alaguem as vizinhanças; ali o acesso é livre a toda a parte, parecendo que a natureza se comprazeu a tornar fácil a visita à sua bela obra. Gonha é como a casquilha que se mostra, que se deixa contemplar, para que a admirem.
Depois de levantar a planta da grandiosa catarata, demorei-me ali até à noite, não cansando os olhos de ver tão esplêndido quadro, em que a cada momento descobria uma nova beleza.
Voltei ao meu campo, saudoso pela lembrança de que não veria mais em minha vida, o espetáculo sublime que deixava para sempre.

Mapa: Alto Zambeze - Cataratas de Gonha


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Escola Técnica Elementar Serpa Pinto

Serpa Pinto foi patrono da nossa Escola  Técnica Elementar Serpa Pinto  entre 1947 e 1951.

"Em 1948, com a construção do novo edifício do Liceu de Faro, a Escola Técnica Elementar Serpa Pinto, criada pelo Decreto Lei n.º 36 409, de 11 de Julho de 1947, passa a ocupar o edifício onde funcionava o Liceu, o qual foi objeto de diversas obras de remodelação e ampliação. Em 31/05/1951, pelo Dec. - Lei n.º 38 277, fundiu-se a Escola Industrial e Comercial de Tomás Cabreira com a Escola Técnica Elementar Serpa Pinto, dando origem  à Escola Industrial e Comercial de Faro."

 in blogue da AAAETC.


     


Serpa Pinto foi militar e explorador do continente africano.

Em 1877 Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens são nomeados para participar numa expedição científica à África Central, que tinha como objetivo -no interesse da ciência e da civilização- explorar os territórios compreendidos entre as províncias de Angola e Moçambique e estudar as relações entre as bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze. Após divergências* com os seus companheiros, Serpa Pinto entendeu continuar sozinho para fazer o reconhecimento do território e efetuar o mapeamento do interior do continente africano, de modo a preparar a entrada de Portugal na discussão pela ocupação dos territórios africanos que, até então, apenas serviam de entrepostos comerciais. Pode ver mais informações sobre o "Mapa cor-de-rosa" e o "Ultimato britânico de 1890 na wikipédia de Serpa Pinto.

*Este desentendimento resultou em dois livros que foram best sellers: “Como eu atravessei a África" de Serpa Pinto e “De Benguela às Terras do Iaca” de Capelo e Ivens.
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Serpa Pinto in wook:

 
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Mais um excerto de Como eu atravessei a África atualizado e lido pelas alunas Beatriz Santos e Maria Sofia para um trabalho de Aplicações Informáticas B no âmbito do Projeto Cont'Arte:

"Não tem pretensões a obra de literatura este livro. Escrito sem preocupação da forma, é a fiel reprodução do meu diário de viagem.

Cortei nele muitos episódios de caçadas, e outros, que um dia no descanso, produziram um volume de carácter especial. Busquei sobre tudo fazer realçar o que mais interessante se tornava para os estudos geográficos e etnográficos, e se não me pude eximir a narrar um ou outro dos muitos episódios dramáticos que abundaram na minha fadigosa empresa, foi quando a esses episódios se ligavam factos consequentes, de importância, já para alterar o itinerário projetado, já determinando demoras, ou marchas precipitadas, que seriam incompreensíveis sem a exposição das causas determinantes.

À Europa, e em geral ao homem que nunca viajou nos sertões do interior de África, não é dado compreender o que se sofre ali, quais as dificuldades a vencer a cada instante, qual o trabalho de ferro não interrompido para o explorador."

Quaresma, Amilcar


Caricatura por Francisco Zambujal


 Poema das sete cores, sete dores

Que fizeram, Poeta às tuas cores?
Que é feito desse verde tão amado,
Porque está o mundo abandonado,
Para que servem, Poeta, as tuas flores?

As tuas Bailarinas já não dançam
O bailado das cores imortais.
Triste são deste tempo estes sinais.
Se os poetas de pintar até se cansam.

Verde, amarelo, azul, violeta, alaranjado,
Variados sentimentos já dançaram.
Mas bailaram, com tristeza, sem calor

As tuas fúcsias no teu verso celebrado.
Pois no fim dessa dança, que bailaram,
O branco foi esquecido pelo autor.

 in Diário, página 195



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6 de Novembro de 1986

Um pouco ao Deus dará...

      Este Diário é, ao fim e ao cabo, uma amálgama de notas arrumadas um pouco ao Deus dará.
Coisas do tempo passado, eu misturo com outras  talvez acontecidas hoje mesmo. Mas o que prometo aos meus leitores, é que a Escola e os moços estejam  nas histórias que eu contar, nos comentários que  fizer. Recordo hoje o Mário. Há quantos anos aconteceu isto, meu Deus? Há mais de vinte e cinco,  certamente. O Mário ganhou mil litros de gasolina super. por ter sido o primeiro, num concurso de frases publicitárias à escala nacional. A empresa  que teve esta iniciativa dirigiu-se à nossa Escola,  que na altura se chamava Escola Industrial e Comercial de Faro, requerendo a nossa participação. Eu era professor de Técnica de Vendas e Publicidade e pus os meus alunos todos, a inventar frases publicitárias. A alegria do êxito veio oferecida em etapas. Primeiro, uma carta elogiosa para o professor que soubera ligar a vida às suas lições. Na verdade, essa tem sido a minha luta, o quebrar fronteiras entre a Escola e a Cidade. Depois a espantosa revelação: o Mário fora o primeiro, entre cerca de 3000 frases concorrentes! Depressa ficou resolvido, que o Mestre acompanharia o estudante premiado a Lisboa e logo nos preparativos da viagem começou a festa. Uma ida ao Jardim Zoológico ficou, desde logo, programada. Hoje, recordo a tal frase vencedora:
 "Viscostatic, um sucesso no progresso" O moço construira uma frase publicitária apenas com quatro palavras! Grande vitória! Lembro-me perfeitamente o gozo que foi tirar partido das ofertas prometidas! Entraríamos no melhor hotel. Não pouparíamos no restaurante. Da vida lisboeta, eu pouco mais sabia que o meu jovem aluno. Daí o encontrarmo-nos   num restaurante, que depois verificámos, e ainda bem, que era muito luxuoso e de cinco estrelas! Meu Deus! Um tanto encabulados, olhávamos para aquilo tudo extasiados. Aquários luminosos com peixes transparentes, volteando...Pássaros exóticos em gaiolas douradas. Velas, em cima das mesas...Ai, santo Deus, como vai ser isto, de escolher os alimentos? Como sempre gostei das cores, deixei-me seduzir por um caldo, que se chamava "Três cores". Sabem os meus leitores, o que aconteceu? Apareceu uma água chilra, sem sabor, onde boiavam três bolinhas, tipo pintarolas!O Mário, olhou-me de soslaio e desatámos a rir, a rir, como perdidos. Jurámos que não nos enganariam mais. Desistimos do luxuoso caderno, onde os pratos vinham com seus nomes em francês e inglês e pedi ao empregado escandalizado, simplesmente, dois bifes com batatas fritas.
       Foi um nunca acabar de episódios memoráveis essa ida a Lisboa , por quatro ou cinco 
dias. Lembro-me agora de dois momentos: um solene; outro espectacular! O momento formal foi
quando na sede da companhia petrolífera o meu aluno assinou um documento através do qual cedia
os seus direitos de autor da frase por si inventada a favor da empresa que a iria usar em todo o mundo, onde actuava, vendendo gasolinas e derivados. Na altura da assinatura sentimos os relâmpagos das fotos de circunstância. O momento espectacular foi, quando no meio dum concurso muito popular da TV de então, o "Diga, diga...", o Jorge Alves, famoso locutor já falecido, nos entrevistou: ao herói da sessão, um moço de Faro e mais o seu professor, que nesse dia entrou pela vez primeira para o arquivo histórico da TV! Podem imaginar, o que foi, em Faro, essa sessão televisiva? Faro era mais pequena, quase uma família...Tenho a certeza que tudo parou, há vinte e seis anos, quando eu e o Mário debutávamos na TV.

In Diário, páginas 143 a 145

                                               

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A Visita ao Porto

As aventuras dos Algarvios, estes rapazes,
   E também as partidas destas moças,
Que de muitos feitos são capazes,
E a santa paciência dos professores,
Que ganharam vitórias não fugazes,
Eu cantarei, se a inspiração vier
E da excursão ao Porto eu comporei
Um poema, se tal fama lá couber!

​A vós, ó ninfas de grande valimento,
A vós filhas do Rio Seco, tão famoso,
EU peço inspiração, entendimento,
E faço-o, em jeito humilde e piedoso.
Se para edificar tal momento,
O valor falta, esse jeito precioso,
Aumentai, musas minhas o talento,
E dai-me um estilo nobre e engenhoso.

In O Diário, Páginas 162 e 163




Biografia

Amílcar Quaresma  foi professor da  Escola Industrial e Comercial de Faro, nos  anos 60  e 70 do século XX.

Nasceu a 11 de março 1934 em Estoi, Faro Desde cedo descobriu vocação para as letras, criando, na escola primária, um jornal colorido a lápis de cor a que deu o nome de Foguete. Fundou e dirigiu várias publicações, como Rompeu, Alvorada, Despertar, Açoteia, Jogral, Tempo Jovem e Preto no Branco, muitas delas escolares, em conjunto com os milhares de alunos que ensinou. Dividiu a carreira de professor entre a Escola Tomás Cabreira e o antigo Liceu de Faro (atual Escola Secundária João de Deus), mas foi também dirigente associativo de várias coletividades, tendo fundado o Jograis de Estoi. Faleceu aos 75 anos e dividiu a sua vida entre a docência, a literatura e a comunicação social.





Rocha, Lutília Gonçalves





A cada colega costeleta

presente nesta confraternização
a festejar o Natal,
o nosso abraço
a encurtar o espaço.
e a aquecer o coração.

Que este dia 
seja de alegria
e muito especial,
que a todos comprometa
conservar o ideal
do ser costeleta!

Apesar do esforço
em estar presente
ao convívio do almoço...
para esta altura do ano
já havia outro plano
que tínhamos pendente.

Lamentamos a ausência
ficamos em abstinência

Mas quando abril chegar...
se Menino Jesus deixar
lá estaremos com alegria.
Brindem todos à harmonia
dum Santo e Feliz Natal
e que o Novo Ano seja
o que o coração deseja.

Boas Festas!
Lutília e Ludgero Rocha

in blogue da AAAETC


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Esta noite é noite de S. João.



        Nas aguarelas da minha infância há postais coloridos desta noite que dança e rodopia até ser dia, como ainda hoje, em algumas localidades.
        Recordo de ler que na vida das comunidades desde a pré-história, havia datas chaves que assinalavam a relação mágica com a terra e o céu. A festa desta noite herda da festa pagã do solstício de Verão todos os símbolos que a caracterizam – pedras, plantas, água e fogo.
      No calendário litúrgico, S. João Batista é o santo precursor da anunciação e preparação da vinda de seu primo – Cristo Redentor. Batizou-O no rio do Jordão, apresentando-O como o Messias.
     O seu culto alia à festa religiosa toda a alegria de um festejo popular que se expande pelas ruas e se comunica e exterioriza de forma ruidosa.
      Naquela época, em que começava despertar para o intrincado da vida, a minha terra, de casario disperso pela serra algarvia de Monte Figo, debruçada sobre a aldeia de Santa Bárbara de Nexe, ganhava um encanto especial, particularmente nesta noite.
      Os mastros surgiam erguidos pelos rapazes onde havia raparigas por perto. Eram cinco: quatro mais pequenos em cada canto formando um quadrado e um grande ao centro de onde pendiam as fitas para a dança do bailarico, todos enfeitados de macela florida, alecrim ou murta que aromatizavam o lajedo onde a fogueira se iria acender para iluminar a noite.
       Os manjericos enfeitavam as janelas de onde saía a luz frouxa das candeias de azeite.
       O som do harmónio ecoava pelas redondezas convidando ao bailarico.
      Os mais idosos sentados nas cadeirinhas de tabua, com o garrafão de vinho tinto ao lado, o naco de pão e a sardinha estivada assada conversavam animadamente.
       As crianças davam largas à alegria saltando a fogueira, nove vezes e dando vivas a São João.
        As raparigas casadoiras, divertiam-se tirando «as sortes».
       Usavam cera derretida, alcachofras chamuscadas, papelinhos com nomes de rapazes, tudo servia para tentar ler o futuro.
      As mulheres casadas faziam a sorte das favas para ver se o ano seria bom para as colheitas – a fava vestida, a semi-nua e a nua – eram passadas pela fogueira nove vezes e escondidas às escuras sob o travesseiro. Na manhã de S. João retirava-se uma fava: se viesse sem casca, o ano seguinte seria de miséria, o contrário seria de fartura.
      Outra sorte era a da bacia com água. Passando-a pela fogueira as benditas nove vezes servia de espelho da vida: se o rosto era visível chegaria ao próximo S. João. Depois essa água servia para lavar o rosto na manhã seguinte, dizia-se, para ficar com pele macia.
        Muitas outras sortes haviam.
         E todos dançavam naquela noite, rindo e cantando onde parecia que o tempo parava.
      Ao terminar da festa, pegava-se na cinza da fogueira para batizar as craveiras na manhã de S. João dizendo:

Eu te batizo craveira
na manhã de S. João
dá cravos de toda a cor
só pretos é que não.

       Assim, nesta noite em que o arraial tem o brilho da alegria de quem vai para a rua festejar os seus santos, com sabor a sardinha, perfume de manjerico e trovas a rolar pelo ar, dê-se ao prazer de sentir a vida ao pormenor, saboreando cada momento que por si desliza, caro amigo costeleta, e viva o São João!


          Carinhosamente aqui fica um abraço

Lutilia Rocha

in http://costeletasfaro.blogspot.com/2019/


Biografia

Santa Bárbara de Nexe.
Frequentou a Escola Industrial e Comercial de Faro, nos anos 50, e a Escola do Magistério Primário de Faro.
Professora do Ensino Básico, escritora e poeta.
Colabora no blogue da AAAAETC - Associação dos Antigos Alunos da Escola Tomás Cabreira.




Rodrigues, Joaquim

 


Do Pombalismo ao Liberalismo

                 Desde os alvores da sociedade humana que a técnica, o saber fazer, esteve intimamente ligada ao desenvolvimento das mais extraordinárias realizações do espírito humano. Inicialmente com um enorme grau de empirismo, mas que paulatinamente se foi afirmando no conhecimento íntimo dos materiais e das forças que deles emanam. Sem este conhecimento, a raiar já a «ciência», as pirâmides do Egipto não seriam mais do que um amontoado de pedras e as catedrais góticas não se elevariam quase ao céu.
              A estreita simbiose entre a ciência e a técnica — para o bem e para o mal da Humanidade - contribuiu decisivamente para moldar a construção da nossa actual sociedade.
             A escola, evidentemente, não poderia, nem esteve alheada deste processo. Com frequência ela foi o catalizador do processo técnico-científico. Como também é verdade que muitas inovações técnicas não partiram das grandes instituições de ensino, mas de simples e habilidosos artesãos.
            Com o desenvolvimento técnico-económico das sociedades nos últimos duzentos anos foi necessário preparar, formar, qualificar, novos e mais vastos sectores profissionais então surgidos, capazes de responder às solicitações da sociedade capitalista.
             Apesar do seu proverbial atraso, Portugal tentava acompanhar a Europa «iluminada».
E que melhor começo que pelo «estrangeirado» Marquês de Pombal e seu consulado. 


in Da Escola "Pedro Nunes" à "Tomás Cabreira" (1888-1974), página 23


2002
.


                                                 __________________________________


Biografia

Joaquim Rodrigues  foi professor da  Escola Secundária Tomás Cabreira  de Faro até ao ano 2010


Joaquim Manuel Vieira Rodrigues é licenciado em História pela Faculdade de Letras de Lisboa e professor aposentado do Ensino Secundário. Investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, é Mestre e Doutor em História Contemporânea pela referida universidade. Tem elaborado estudos e conferências essencialmente sobre temas relacionados com o Algarve.

2002
2002
2019
2019



Romana, Maria

O PASSADO E OS PRESENTE

Quando criança, brincava com outras crianças,
Jogava ao manecas e à corda;
Ao jardim da celeste,
Aos bailes de roda.
Frequentava a Escola Primária,
Levava puxões de orelhas e ficava de castigo, sem recreio! Diziam que eu era inteligente e exigiam muito de mim. Descontrolava-me e fazia tudo mal.
Lá vinha o insucesso escolar.
Já era crescidinha, uma mulherzinha
Frequentava o Curso Secundário e as lições de solfejo e piano,
                                      [fazia pequenos poemas.
De vez em quando, era repreendida e castigada por me ter
                                     [apaixonado por um miúdo da minha idade.
Só tive esse namorado!...
É com ele que estou casada.
Hoje, sou esposa, mãe, avó, mulher trabalhadora.
Estou cansada, mas feliz.

in Um Mundo Sensível,página 94
                                                   


POEMA BASEADO NA ESTROFE

"Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente 
É dor que desatina sem doer."

                                        Camões


Amor é fogo, que arde sem se ver, 
Mas sente-se no coração palpitar. 
Provoca sofrimento e desalento 
Por esse sentimento de amar

É ferida, que dói e não se sente,
Mas percebe, quem tem o sofrimento
Por um grande amor, que ninguém sabe
E que se perde, em qualquer momento.

É um contentamento descontente 
Porque esse amor é infeliz.
Por isso é que no seu peito sente
A mágoa, que o destino quis.

É dor, que desatina sem doer,
Mas esse sofrimento é constante. 
Um amor, que teima em querer,
E que se encontra lá, bem distante...

in Mundo Sensível, página 10


Maria Romana trabalhou na escola secundária de Tomás Cabreira, nas últimas décadas do séc. XX como enfermeira escolar.


DO MUNDO DO MEU SENTIR..
AO MUNDO SENSÍVEL DO POETA!
Vibram dentro do mundo poético, nessa cascata que é a alma na imensa montanha do "Ser" às vertentes por onde corre o rio do "Sofrer", onde deslizam lágrimas e sorrisos, tristezas e alegrias, sonhos, anseios... que o poeta experimenta, sensações que o fazem vibrar, que desafiam à lira da alma as palavras do amor, com a musicalidade da vida, de tudo o que existe de mais belo na Natureza, sonhando aquém!...
Neste "UM MUNDO SENSÍVEL" de Maria.Romana, há um espaço onde o coração tem maior dimensão, onde se sente a espontaneidade do amor, do seu "querer" e do "ser" numa dualidade entre o "dar" e o "receber", dessa dimensão divina que partilha e que um poeta nos transmite.
"UM MUNDO SENSÍVEL" é uma viagem pelo universo da vida que há em si, que a leva (a autora) ao mar, esse mar que nos surge na magia do horizonte, tangendo o espaço infinito... que nos transporta ao mistério que é a alma na sua imensidão!... Em que o próprio mar nos convida à melodia, tal como o rio que corre ou a fonte, sentindo a sede de ser criança e o encanto da Natureza que na sua dádiva maior nos dá sempre o Natal do amor. A obra é um cântico, onde tudo isto se harmoniza na paisagem do Algarve de sol dourado.
A palavra que nos sai da alma, ligada à matéria, dá-nos muitas vezes, a música maravilhosa dos sentidos, em ligação com a palavra a imagem que o poeta nos dá, verdadeira tela que torna a Poesia uma verdadeira oficina de arte...
A poesia é um estado de espírito que alimenta a alma em que as suas nascentes para dar a beber a água pura, para matar a sede, terá de ser destilada no alambique do amor.
Irradia na obra da autora, um despertar de sonhos e realidades, de observadora atenta ao "Reino da Natureza", manifestando no seu "EU" a mais sublime missão de Amor ao próximo. O suave perfume duma flor, a beleza dos cânticos à terra, tornam claro o significado do seu "MUNDO SENSÍVEL". Apresentando na sua poesia formas que obedecem à "Oficina da Poesia" e não com o rigor do "Laboratório da Poesia"... No "MUNDO SENSÍVEL", há constelações em que a luz da alma ilumina o brilhante "Painel do Amor" em que a procura de si, é apanágio dos seus versos.
"UM MUNDO SENSÍVEL" é uma obra em que o poeta se veste da sinceridade e observadora atenta da vida e do ser humano e de tudo o que nos rodeia.
"UM MUNDO SENSÍVEL" ficará na memória dos tempos e no Arquivo dos Sentimentos. É dedicada a todos os que sentem esse Mundo!

MARIA JOSÉ VIEGAS CONCEIÇÃO FRAQUEZA
Fuzeta, 29 de Abril de 1991

in Um mundo Sensível, contracapa